8 de julho de 2016

O Brasil na Copa do Mundo de 1938 - Parte II


O BRASIL NA COPA DO MUNDO DE 1938 – PARTE II

João Saldanha

O primeiro jogo foi em Estrasburgo. O campo era razoável,mas o estádio muito mixuruca. Umas doze a quinze mil pessoas podiam entrar lá dentro. Não lotou. Brasil e Polônia não só não atraíam muita gente, como uma competição de ciclismo, ali pertinho, arrastou a multidão para lá. Os poloneses eram bons. Notou-se isso logo de cara, quando andaram perdendo uns gols. Mas jogavam um alegre e meio desorganizado. Ou iam todos à frente, ou ficavam todos na retaguarda. Chegamos a fazer quatro a dois e nos últimos momentos eles empataram. Quatro a quatro e teve de haver prorrogação. Fizemos dois gols e eles um. Resultado: seis a cinco. Mais tarde, quando voltei ao Brasil, fiquei sabendo que se propalara que os poloneses tinham empatado por causa da chuva, quando vencíamos por 4 a 2. E a explicação é que os europeus sabiam jogar na chuva e nós não. Não é verdade. Quando começou a chover, pouca chuva por sinal, a partida já estava empatada. A chuva não nos atrapalhou em nada. Batatais não esteve muito bem e Wilimovski passava por nossa defesa com muita facilidade. Fez dois gols e cavou um pênalti. De qualquer forma, vencemos. Nosso time foi o azul. Completinho.
Após o jogo, como alguns jogadores ficaram com os músculos meio doloridos, Carlos Volante, depois campeão pelo Flamengo, apresentou-se como massagista. Seu contrato com o Racing, de Paris, havia terminado e sua idéia era vir para a América do Sul. Ajudava nos treinos como massagista e como tapa-buracos, em qualquer posição, caso alguém não pudesse treinar. Médico também não tínhamos. Nariz, zagueiro do time branco, “quebrava os galhos”. Castello Branco ajudava e, se fosse o caso, bastaria procurar um doutor francês na lista telefônica. Não foi necessário. Mesmo a célebre distensão de Leônidas não poderia ser curada a tempo. No mais, a gripe fortíssima de Domingos da Guia e Batatais, que foram tratados por Álvaro Lopes Cansado, nome inteiro de Nariz.
De Estraburgo fomos para Bordéus. Lá seria o segundo jogo, contra a fortíssima Tcheco Eslováquia, vice-campeã mundial de 1934, que só havia perdido a final para a Itália, com Mussolini chefiando a torcida da “Squadra Azurra”. Mas era preciso dar um treino. No estádio oficial dos jogos da Copa não era possível. Só seria inaugurado no dia do jogo, e em matéria de inauguração só franceses são inflexíveis. O remédio era treinar num campo qualquer. Por informação e por ajuda arranjaram um local.
Um sério problema aconteceu. Antes de nós, algumas vacas haviam estado no campo e fizeram de tudo. O doutor Sotero Cosme, diplomata e representante da CBD junto à FIFA, sabendo falar muito bem o francês, foi se queixar da irreverência das vacas. O dono do campo ouviu a reclamação e deu uma bronca: “Esse campo é para as minhas vacas. Já fiz muito em cedê-lo por uma hora. Tratem de treinar se quiserem e não se atrevam amexer em nada. Não posso ter prejuízo”. E retirou-se indignado. O jeito foi treinar com todo cuidado. Castello Branco e Nariz chamaram a atenção dos jogadores para não caírem, pois poderiam se esfolar e contrair tétano. Foi mais um bate-bola do que um treino. Os goleiros é que não aceitaram a bronca do dono e arranjaram uma pá para limpar a área. Mas serviu para mexer o time.
Tínhamos jogado com a Polônia em cinco de julho. No dia doze veio o jogo com os tchecos. Parada duríssima. Fizeram u gol de pênalti, cometido por Domingos da Guia, e nós fizemos outro. Leônidas foi o autor. Nosso time foi o azul, com Walter no lugar de Batatais. Chegamos a dominar o jogo, mas Planicka, o goleiro, pegava tudo. Daucik, beque, que apelidamos de “Pescoço de Touro”, também era um paredão. No ataque, Rhia, o ponteiro, e Hedjely davam muito trabalho. O um a um não saía do marcador quando Zezé Procópio deu uma sarrafada em Rhia, que também não era anjinho. Foi expulso, mas o adversário não pode jogar mais. E acho que por muito tempo. Nosso beque, Machado, deu uma bolacha num outro gringo e também foi expulso. A torcida, que estava do nosso lado, virou contra. Ficamos nove contra dez, e haveria prorrogação. A “sorte” é que Perácio, numa bola dividida com Planicka, quebrou o braço do goleiro. Não houve má fé. Mas foi a salvação da lavoura. Com prorrogação e tudo terminou mesmo um a um. Haveria um jogo-desempate quarenta e oito horas depois. Os tchecos apareceram em nosso hotel para uma visita de cortesia na véspera do jogo. Planicka com um braço na tipoia, Rhia de muletas e o outro com uma mancha roxa no rosto, faziam parte da comissão apaziguadora. Foram bem recebidos e a missão coroada de êxito. A outra partida foi limpa. Dia catorze, lá estávamos no mesmo campo.Nosso representante foi o time branco, com Leônidas de centro-avante. O tal jeitinho que seria dado para que Niginho pudesse jogar, não pode ser. A FIFA endureceu e nada feito. Leônidas teve que “dobrar”. O time tcheco era quase o mesmo, sem Planicka e Rhia que estavam no estaleiro. Tinham levado apenas dezesseis ou dezessete jogadores. Chegaram a marcar um gol na frente, por intermédio de Nedjely. Leônidas fez um golaço de virada e Roberto, no segundo tempo, pegou um sem pulo de perna esquerda. Dois a um e o jogo ficou fácil. Eles estavam “mortos”. Leônidas também. Estendeu mesmo um músculo. Nem podia caminhar e, dois dias depois, em Marselha, teríamos de enfrentar a Itália, campeã do mundo. Um time esgotado contra um adversário fresquinho e muito bom.

Fonte: O Brasil na Copa do Mundo (livreto distribuído pela Esso do Brasil, em 1966)

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