7 de julho de 2016

O Brasil na Copa do Mundo de 1938 - Parte I


O BRASIL NA COPA DO MUNDO DE 1938 – PARTE I

João Saldanha

Era a terceira vez que o Brasil participaria da Copa do Mundo. Nas duas primeiras, as experiências foram amargas. A Copa de 1938 seria disputada na França e o Brasil armou uma grande equipe. Efetivamente, o que havia de melhor. Não havia cisão como nos anos anteriores e São Paulo participava com seus craques. A escolha dos vinte e dois não deu margem a grandes discussões. Os jogadores representavam a fina flor do nosso futebol.
Apenas uma ou outra divergência: se deveria ser Perácio o meia esquerda ou se Tim deveria ser o efetivo. Na ponta-esquerda a discussão se travou tendo, como bandeira, de um lado, Hércules, e do outro Patesko. A verdade, porém, é que todos eram grandes jogadores. Dois times foram preparados: o azul e o branco. O time azul era considerado o mais agressivo, e o time branco o dos bailarinos. Os treinos coletivos davam resultados positivos para ambos. Os de ginástica, entretanto, deixavam a desejar. O fato é que, naquela época, ninguém sabia direito, em todo o Brasil, a ginástica adequada ao futebol. E, naquele tempo, não só os jogadores como também o público, tinham raiva do treinamento físico. Como os treinos eram de porta aberta, bastava o técnico Ademar Pimenta tentar começar a ginástica para as vaias começarem: “Isso é lero-lero!” A ginástica constava de uma ou duas voltas ao campo, um pouco de respiratória e um ou outro movimento de braços. Não passava de um fraquíssimo aquecimento. Público, imprensa e os próprios jogadores queriam era o treino com bola. Com a bola, melhor dito, porque se a única existente fosse parar muito longe, ou caísse na rua quando o exercício era no campo do Botafogo, parava o treino até que um garoto de boa vontade a trouxesse de volta. Se fosse um garoto mau caráter, era um buraco. O treino só recomeçava quando o clube emprestava, com restrições, sua bola. Geralmente uma bola preta e muito gasta. Ademar Pimenta reagiu e exigiu pelo menos duas bolas para poder treinar direito. E que fossem novas. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), em vez de duas, comprou três. Não houve mais o problema. O time azul, o principal, foi escalado assim: Batatais, Domingos da Guia e Machado, Zezé Procópio Martin e Afonsinho, Zeca Lopes, Romeu, Leônidas, Perácio e Hércules. O time branco com Wálter, Jaú e Nariz, Brito, Brandão e Argemiro, Roberto, Luizinho, Niginho, Tim e Patesko.
Com Niginho havia uma encrenca na FIFA. Deixara o Lazio, da Itália, sem terminar o contrato. Pimenta quis levar Caxambu, mas a imprensa, a torcida e a própria CBD acharam que Caxambu não era o ideal e que se daria um jeitinho no caso. Niginho, certamente, jogaria.
Em 1938, só havia eliminatórias na Europa. Na América não era necessário. Só o Brasil participava e bastou a inscrição pura e simples. Mesmo na Europa só uma ou duas eliminatórias foram disputadas. A Inglaterra não dava pelota para a Copa do Mundo porque coincidia com as férias do seu futebol. E para os ingleses, jogar futebol, consagrado como esporte de inverno, era um crime competir no verão. Só por exceção, durante a visita do Rei George e da Rainha, e por altos interesses diplomáticos, a seleção inglesa deu um pulo a Paris, bateu nos franceses, passeando, por quatro a dois, e voltou no dia seguinte para casa a fim de jogar “cricket” e tomar chá. Tal jogo só foi possível porque 1938 foi um ano agitado. Hitler já havia anexado a Áustria e os ingleses e franceses tinham que demonstrar uma sólida amizade. Como os ingleses não participavam, também não davam bola os outros países do Reino Unido. Não havia, pois, necessidade de eliminatórias. Além do mais, o time alemão era formado por oito austríacos e apenas três da Alemanha propriamente dita. Portugal não foi,e a Espanha estava terminando sua guerra civil.
E partiu o time brasileiro. Muito entusiasmo e esperança. Sem dúvida, uma grande equipe. As rebarbas foram aparadas. O jogador Luizinho, recém-casado, exigiu levar a esposa. A CBD, sempre diplomática, ajeitou o caso. A mulher de Luizinho foi.
A imprensa estava representada por Everardo Lopes, Thomaz Mazzoni e Afrânio. O rádio, por Gagliano Netto. Eu, que tinha vinte anos, fui credenciado, de araque, por um jornal carioca chamado O Mundo Esportivo ou Mundo do Esporte, não me lembro bem. Não usei a credencial porque ninguém me pediu. De qualquer forma ia para a Europa ver a Copa e já tinha viagem, estadia e ingressos pagos para todos os jogos. Tampouco precisei dos ingressos. Nos jogos do Brasil ia junto com a delegação, e nos outros, fui entrando. Como usava um blusão da CBD, mesmo em outros jogos, e os franceses não eram exigentes, não tive problemas.
Nosso time chegou e foi alvo de especiais atenções. Nem o nosso nem os outros abalaram os torcedores franceses que não eram muitos. A única diferença é que no time brasileiro tinha crioulo. Isto o destacava de todos os outros competidores. No primeiro treino na Europa, toda a imprensa da Copa foi assistir. Pimenta despistou e para encher os olhos dos “espiões”, colocou Domingos da Guia na ponta-esquerda, Leônidas de beque, Martin de meia-esquerda e assim por diante. Houve um grande despistamento, inclusive para os nossos jogadores, que estavam sem treinar há muito tempo. Afinal de contas, a viagem tinha sido feita de navio, doze dias no “Arlanza”, e mais uns dois com preparativos de saída e chegada.

Fonte: O Brasil na Copa do Mundo (livreto distribuído pela Esso do Brasil, em 1966)

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