12 de julho de 2016

O Brasil na Copa do Mundo de 1938 - Parte III


O BRASIL NA COPA DO MUNDO DE 1938 – PARTE III

João Saldanha

O jogo Brasil e Itália era decisivo da Copa. Logo no começo, ninguém fazia muita fé no nosso time. Mas depois das duas partidas contra a Tchecolosváquia a coisa mudou. Os observadores faziam restrições ao nosso modo aberto de jogar. Achavam nossa defesa vulnerável. Entretanto, não deixavam de salientar o espetacular domínio de bola e a habilidade dos brasileiros. Leônidas da Silva se transformara numa das principais vedetes da Copa. Estava sempre nas manchetes juntamente com Piola, Meazza e o húngaro Sarosi, os outros “cobras” dor torneio. Mas nossa vitória sobre os tchecos colocara na imprensa a decisão: quem vencer a partida será o campeão. A Itália tinha uma dose de favoritismo. Formara um grande time, muito bem treinado e, o que era mais importante, dentro do padrão do futebol moderno. Mas havia um fator que nos fazia equilibrar o jogo.
A tônica da Copa do Mundo de 1938 foi a guerra que explodiria um ano depois. A torcida ia ao campo levando isso a sério. O aspecto esportivo foi muito prejudicado. As forças estavam divididas: Itália e Alemanha, quando jogavam, enfrentavam adversário, torcida e, algumas vezes, o árbitro.
O jogo Suíça e Alemanha, por exemplo, foi típico. O time alemão era muito superior. Oito austríacos e três alemães. A Áustria, pouco antes, era chamada de “Wonder Team” o “Time Maravilhoso”. A Suíça tinha o mesmo padrão de hoje. Jogava modestamente e muito trancada. A Alemanha era a favorita. Mas quando seus jogadores entraram no campo do C. A. P., em Parc des Princes, em Paris, marchando como soldados, perfilando-se no meio de campo, estendendo o braço direito para cima e, em vez de “Hip Hurra”, gritando “Heil Hitler”, foi aquela água. A torcida vaiou mandando uma brasa firme e entrou a Marselhesa. Eu também cantei. Quer dizer, pelo menos aquele pedacinho que todo mundo sabe: “Alons enfants de la Patrie...” A onda pegou, e os suíços se entusiasmaram. Mas não adiantou muito. Logo de cara um a zero para a Alemanha. Um suíço se machucou e dois a zero. Parecia que o jogo estava terminado. Como a Suíça poderia recuperar? Sei lá, o caso é que pelas tantas, um zagueiro alemão deu uma pregada num suóço. O público exigiu e o juiz mandou-o pra fora. Novamente a Marselhesa tomou conta, e um suíço, em posição meio marota, marcou o primeiro para o seu time. Os alemães reclamaram e a onda aumentou. Logo em seguida, dois a dois, e a Suíça dominou. Resultado: a Marselhesa ganhou o jogo por quatro a dois. A Suíça não foi longe. No jogo seguinte saiu do páreo.
Com a Itália o negócio não era tão agressivo. Também os italianos não foram trouxas. Na primeira partida, contra a Noruega, entraram em campo fazendo a saudação fascistas. Em Marselha não era sopa, e o povo invadiu. O time italiano se mandou para dentro do vestiário e voltou dando “Hip Hurra”. Mesmo assim, contra o mais fraco adversário da Copa, tomou um gol de cara, só empatou no finzinho e ganhou a duras penas na prorrogação. Para se ter uma idéia, depois o time da Noruega jogou contra um time da segunda divisão francesa, amistoso, perdendo por oito a três.
A seguir, a Itália enfrentou a França em Paris. Os franceses era apenas regulares. Tinham a vantagem de estar em campo da casa, mas fizeram uma onda prejudicial. Seu goleiro, Di Lorto, de origem italiana, foi posto em dúvida pela imprensa. Di Lorto jogou e muito bem. Mas foi impotente para deter a “Squadra Azurra”, e a França perdeu por três a um. Em Paris, os italianos foram malandros. A saudação para o público foi mais um adeusinho do que aquela estirada enérgica do braço para cima. Depois da França, o negócio era contra nós. O jogo foi marcado para Marselha. Lá mesmo onde os italianos tinham passado mal contra a Noruega. A Itália chegou a protestar, mas não adiantou. A FIFA manteve a ordem.
Nosso time estava cansaço e havia dificuldade de transporte de Bordéus para Marselha. Um ônibus foi fretado, e na frente seguiram os que deveriam jogar. Leônidas estava de fora. Sei que até hoje discutem a questão. Mas a verdade é que ele não tinha condições. Uma distensão e a estafa impossibilitavam a ideia. Os dois jogos contra a Tchecolosváquia um deles com prorrogação, botaram nossa equipe em condições de miséria. Ainda foi tentada a inclusão de Niginho no time. A FIFA não aceitou. Niginho estava suspenso por quebra de contrato e não havia condição.
O jeito era improvisar um time e tratar de descansar até a hora do jogo. A seleção brasileira foi para “Camoins les Bains”, nos arredores de Marselha. Bom lugar e sossegado. O diabo era um barzinho do outro lado da estrada, onde uma mulher gorda e muito compreensível servia magníficos aperitivos.

Fonte: O Brasil na Copa do Mundo (livreto distribuído pela Esso do Brasil, em 1966)

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