14 de julho de 2016

O Brasil na Copa do Mundo de 1938 - Parte IV


O BRASIL NA COPA DO MUNDO DE 1938 – PARTE IV

João Saldanha

Nem bem havíamos chegado em Marselha e apareceram na concentração brasileira os italianos. Vitorio Pozzo, o grande treinador, estava acompanhado por três pessoas. Scopelli, ex-jogador argentino que já tinha jogado pela Itália e pela França, e mais dois com pinta de agentes funerários. Pozzo trajava um vistoso paletó azul-rei e calças cinza-claro. A camisa era branca. Elegante, até, estava o velhão. Scopelli não me chamou a atenção, mas os outros dois vieram de terno preto, de casemira, gravata preta e chapéu da mesma cor. O motivo da visita era o seguinte: por questão de dificuldades em passagens aéreas, Pozzo queria combinar o fretamento de dois aviões. O time que ganhasse iria para Paris, disputar a final com o vencedor de Hungria e Suécia. Quem perdesse o jogo iria para Bordeus disputar o terceiro lugar com o perdedor dos outros dois. Nossos representantes na discussão não foram muito diplomáticos. Responderam logo de cara que já tinham reservado avião para Paris e os italianos que se virassem. O pior, entretanto, foi a declaração de um dos nossos, se não me engano, o próprio Pimenta, que disse com voz de bravo: “E olhem, sabemos que os italianos jogam duro, mas com o Brasil a cana é diferente. Os tchecos se estreparam”.
Scopelli e Carlos Volante, que serviam de intérpretes da conversa, nem quiseram traduzir. Mas os homens entenderam bem e, malandramente, enviaram um ofício à FIFA, para que advertisse o árbitro do jogo que os brasileiros, por viva voz do treinador, afirmaram que iam “baixar o pau”. O ofício foi assinado pelo chefe da delegação italiana e como testemunhas, Scopelli e os dois “papa-defuntos”. Pegou mal o negócio. E veio o jogo. Sentei atrás do gol junto com Tim e Nariz que estavam no banco. Os italianos foram nitidamente superiores no primeiro tempo. Nosso goleiro, Walter, pegava até pensamento e as balizas nos ajudaram. Domingos da Guia, Martine Machado faziam uma grande partida, mas a pressão italiana era fortíssima. Tim a meu lado chegou a dizer: “Não aguentaremos. Não demos um chute a gol e eles já perderam uns quatro ou cinco”. Era verdade. Olivieri, goleiro italiano, não tinha feito uma defesa, e Walter estava até meio tonto. Nosso ataque não se entendia e nem recebia uma bola. A narcação italiana era perfeita. Jogavam limpo, pois não queriam bronca. Sentiam que poderiam ganhar a partida. Estava fácil, e o zero a zero do primeiro tempo tinha sido milagre.
Veio o segundo tempo e, não demorou muito, Biavatti centrou para o extrema-esquerda Colaussi, que emendou para dentro. Um a zero para eles. Bem na nossa cara. No gol em que estávamos sentados. Não houve reação. Ao contrário. Os italianos atacavam cada vez mais, e Colaussi armou-se para centrar uma bola da extrema-esquerda. Piola vinha na corrida para receber e, antes do centro, Domingos da Guia, meio atrasado no lance, deu um bico no joelho de Piola. O árbitro suíço Wutrich marcou o pênalti e fez um gesto de expulsão para Domingos da Guia, pois considerara o pontapé sem bola uma agressão. Formou-se o bolo e a torcida ficou do nosso lado. Domingos da Guia não foi expulso, mas o pênalti foi irreversível. Meazza chutou e dois a zero. Nariz comentou: “Não havia necessidade de fazer o pênalti; o centro nem tinha saído”. Tim retrucou: “É, mas o gringo vinha sozinho pelo meio da área e era gol certo”. O caso é que houve o pênalti e nós não sabíamos de muita coisa. Nem as regras do jogo. Ridiculamente, ainda protestamos por escrito. Como a bola estava fora da área, muitos pensaram que não havia pênalti. Acontece que a falta de Domingos da Guia fora bem dentro da área. Outra coisa que não sabíamos era bater tiro-de-meta. Embora a lei fosse antiga, aqui no Brasil o costume era o beque levantar a bola para o goleiro, este agarrar com as mãos e chutar para a frente. Só pouco antes da Copa de 38 é que o “tiro-de-meta” passou a ser usado em nossos campos. No finzinho do jogo, Romeu, escorando um centro de Patesko, marcou para nós. Além desta vez, só estivemos perto do gol quando Foni, beque italiano, falhou e Perácio dividiu uma bola com o arqueiro italiano. Foi muito justa a e fácil a vitória da Itália, como também foi justa e fácil a vitória final, por quatro a dois, contra os húngaros, em Paris.
Não assisti o jogo Brasil e Suécia, pois fui ver a final. Nos classificamos em terceiro lugar, mas fomos considerados os segundos. O jogo contra a Itália tinha sido a verdadeira final. Este era o pensamento unânime da crônica.
Tivemos possibilidades de ser campeões. O time era excelente, mas nosso modod e jogar obsoleto. Rigorosamente, estávamos catorze anos atrasados. A lei do “of-side” havia sido modificada em 1924, e nosso time jogava apenas com dois beques de área. Todos os demais jogavam com três, no mínimo. Daí sermos tão vulneráveis. A nova lei do impedimento obrigava a modificação. Não adiantava mais o “beque-espera” e o “beque-avanço”. Antes, isso era justo. Antes de 1924. Bastava o “Avança” dar dois passos e colocar todo o ataque adversário em impedimento. A lei dizia: “Para se estar em condições de jogo, é necessário ter pelo menos três adversários pela frente”. Então, com a saída do “avança”, ficavam apenas dois. A nova lei, que vigora até hoje, mudou tudo, inclusive a forma de jogo, quando disse: “Para se estar em condição de jogo, é necessário ter pelo menos dois adversários pela frente”.
O caso é que nós tínhamos sempre dois beques contra três atacantes. Isto é o que explica o fato de Domingos da Guia ser obrigado a fazer pênaltis em todas as partidas. Quase que em desespero. Logo ele que foi consagrado como um dos melhores da Copa. O pior era no meio de campo, onde tínhamos três “médios” e os adversários apenas dois “meias”, intercalados entre nossos homens, deixando Afonsinho e Zezé Procópio sem tarefa, ao mesmo tempo em que punham Martin Silveira na roda. Esta foi a principal questão que causou nossa derrota. Estivéssemos atualizados, e não perderíamos.

Fonte: O Brasil na Copa do Mundo (livreto distribuído pela Esso do Brasil, em 1966)

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