8 de junho de 2016

O Brasil na Copa do Mundo de 1930


O BRASIL NA COPA DO MUNDO DE 1930

Thomáz Mazzoni

A situação do futebol brasileiro era boa, em 1930. Depois de quatro anos de cisão, surgira a pacificação em São paulo, fundindo-se a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) e a LAF. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) estudava tranquilamente as providências para sua participação na primeira Taça do Mundo. O campeonato brasileiro de 1929 reunira a nata do futebol do Rio e de São Paulo, incluindo nomes da geração de 19, ainda na ativa. A seleção, jogando com o nome de Combinado Rio-São Paulo, não perdia há bastante tempo. Em 1928 e 1929 derrotara famosos clubes estrangeiros: o Motherwell, escocês, por 5 a 0; o Rampla Juniors, uruguaio, por 4 a 2; o Barracas, argentino, por 5 a 3; e o Ferencvaros, húngaro, por 2 a 0. Assim, com os mesmos craques daquelas jornadas, o Brasil poderia formar uma forte seleção. Vieram as convocações, e com elas, a troca de telegramas e ofícios que documentam a crise.
“CBD – Rio – 07/5/1930. Exmo. Sr. Presidente da APEA. Abraços. Apresso-me acusar recfebimento ofício dessa entidade participando patriótica decisão suspender, após 9 corrente, jogos campeonato futebol para disputa campeonato mundial. Tenho grande satisfação transmitir V. Exª. plena satisfação causada ato associação sua alta presidência, que aliás era esperado ante tradições benemérita filiada. Peço V. Exª. Fineza providenciar para jogadores estejam capital quinta-feira próxima, dia 12 corrente”.
Mas logo a seguir, o maligno espírito da velha rivalidade, sempre mal orientada, deveria se intrometer e arruinar tudo, exatamente como acontecera para os sul-americanos de 1920 e 1923. Paulistas e cariocas reiniciaram a briga regionalista e tudo foi por água abaixo. Assim, quando a CBD convocou os paulistas Clodô, Feitiço, Del Debbio, Serafino, Pepe, Filó, Heitor, Friedenreich, Araken, De Maria, Athiê, Grané, Luizinho, Petronilho e Nestor, a APEA negou-os. Mas explicou sua atitude num relatório oficial:
“Em princípio do corrente ano a APEA pleiteou junto à CBD a nomeação de um dos seus membros – o veterano Amílcar – de sua comissão de esportes para integrar a comissão da entidade nacional encarregada de organizar o selecionado. Essa pretensão da APEA foi mal recebida pela CBD que, primeiramente com protelações, afinal com a recusa franca, indeferiu nosso desejo. Nestas condições, a APEA, para evitar a continuação das humilhações pelas quais a CBD a fazia passar, recusou-se a cooperar com seus jogadores para a formação do selecionado brasileiro. Finalmente, a 12 de junho de 1930, chegou a resposta da CBD, declarando que não podia atender ao pedido da APEA porque seus estatutos fixavam em três os membros da comissão e estes já estavam nomeados; esqueceu-se, no entanto, o senhor presidente, que a CBD já havia aumentado para cinco os membros dessa comissão, nomeando ainda dois adidos à mesma”.
Era a crise. A CBD reuniu os jogadores de que dispunha e os enviou para Montividéu. Um único paulista se ofereceu – Araken Patuska – por estar sem clube na ocasião. Como seria formada a seleção, se todos se apresentassem? À base das atuações do Combinado, isto é: Athiê; Itália e Grané; Pepe, Fausto e Serafino; Filó, Petronilho, Friedenreich, Feitiço e De Maria. Era o time ideal, que a crise não deixou viajar. E o Brasil entrou em campo com Joel; Brilhante e Itália; Hermógenes, Fausto e Fernando; Poly, Nilo, Araken, Prego e Teófilo.
Fazia muito frio no dia do primeiro jogo. O adversário era a Iugoslávia, na época sem cotação internacional. Porém, tudo foi mal para os nossos. Acostumados a temperaturas baixas e com mais conjunto, os iugoslavos encontraram um rival sem confiança e desorganizado. Já no primeiro tempo venciam por 2 a 0. No segundo, numa pequena reação, os brasileiros chegaram a dominar, mas sem sorte. Fizeram um gol, por intermédio de Prego e só. Final: Iugoslávia dois a um.
A derrota deixou o Brasil sem chance de classificação. Restava o jogo com a Bolívia. Mudou-se o time e ele melhorou. Saíram Joel, Brilhante, Poly, Nilo, Araken e Teófilo, entrando, respectivamente, Veloso, Zé Luís, Benedito, Russinho, Carvalho Leite e Moderato. Como segundo colocado do grupo, porém, (venceu a Bolívia por 4 x 0, gols de Prego 2 e Moderato 2), o Brasil não passou à rodada seguinte. Entretanto, teria sido fácil vencer. Basta lembrar o que houve depois da Copa. A CBD convidou os escretes da França, dos Estados Unidos e da Iugoslávia para uma série de amistosos. O nosso Combinado venceu a Iugoslávia por 4 a 1, a França por 3 a 2 e os EUA por 4 a 3. Os americanos ainda perderam para o Botafogo (2 a 1), para o São Paulo (5 a 3) e empataram de 3 x 3 com o Santos; a França perdeu para o santos por 6 a 1, e a Iugoslávia perdeu para o Vasco por 6 a 1. Nada disso, porém, tirava a copa dos uruguaios, que unidos, organizados, já sob a legenda da Celeste, levantaram o título.
Esta série de resultados expressivos convenceu a todos que, brigando entre si, os brasileiros derrotaram a sua seleção antes mesmo de embarcá-la. Tivessem os dirigentes se entendido a tempo e evitariam o que aconteceu em Montividéu, onde, de positivo, ficou apenas a presença de Fausto dos Santos, considerado p melhor centro-médio do certame, sem apelidado A Maravilha Negra.

Fonte: O Brasil na Copa do Mundo, editado pela Esso do Brasil em 1966

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